Lanterna mágica

Ensaio

João Batista Melo e Julia de Victa (filmagens de "Tampinha")

Calafate, Argentina 

Foto: João Batista Melo

 

Baseado na dissertação de mestrado defendida na Unicamp, em 2004, e que foi a primeira tese acadêmica sobre o assunto produzida no país. Lanterna mágica é também o primeiro livro brasileiro a apresentar um panorama amplo do cinema infantil. Finalista do Prêmio Jabuti 2012, este ensaio conta a história do cinema infantil mundial e brasileiro e discute suas abordagens pedagógicas e sociológicas. 

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A influência da literatura e da televisão, as referências dos contos de fadas, a relação entre as narrativas infantis no cinema e as teorias da pedagogia, as estratégicas de marketing e merchandising que estão por trás de várias produções cinematográficas, são alguns dos  temas que  perpassam este estudo. 

Antes de partir para a realização desse trabalho, João Batista Melo atuou como crítico de cinema durante quase vinte anos nos jornais Estado de Minas e Hoje em Dia.  

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Finalista do Prêmio Jabuti - Categoria "Comunicação"

Trecho

Como se faz cinema para crianças no Brasil?  Em entrevista à Shahid, João Batista Melo conta sobre a sua relação com livros e filmes, da infância até os dias de hoje, e aborda a qualidade das produções nacionais voltadas ao público infantil. 

Rosa-Linda Obono Mukuy

Histórias de guerrilheiros no distante Marrocos, sabotagens numa ferrovia em construção, hindus elusivos e misteriosos. Essas são algumas das recordações que o escritor Antônio Cândido resgata de sua infância na sala de cinema em uma cidade do interior. Em meio às lembranças dos filmes, são os seriados que respondem por uma parcela representativa de suas reminiscências. Naqueles tempos, eram essas produções, divididas em doze a dezesseis partes, que mais conquistavam o interesse das crianças, em especial dos meninos. Havia também complementos, como algum curta de faroeste ou mesmo o longa-metragem da véspera. Mas o que mais interessava ao público infantil eram os seriados.

 Lembranças muito parecidas são evocadas pelo também escritor Ignácio de Loyola Brandão, quando se refere às sessões com mocinhos infalíveis e cenas de ação que eram interrompidas e permaneciam congeladas na mente das crianças ao longo da semana, à espera da continuação que somente viria no domingo seguinte.

     Antônio Cândido lembra, ainda, que a partir de 1927, seus pais levavam-no e aos irmãos às sessões noturnas, nas quais eles podiam assistir a filmes comoO Fantasma da Ópera (Arthur Lubin, 1943), O Barqueiro do Volga (The Volga boatman, Cecil B. DeMille, 1925) ou Beau Geste (Beau Geste, Herbert Brenon,1939). Aquela foi uma época em que se exibia um tipo de filme que podia ser compartilhado entre pais e filhos, entre adultos e crianças. Havia os seriados, que tinham um componente mais infantil ou juvenil, mas por outro lado, como demonstram esses testemunhos, não era incomum que as fitas vistas pelos adultos à noite fossem reexibidas para as crianças à tarde.

     São também de filmes compartilhados com meu pai as mais remotas lembranças que tenho do cinema. Recordo, nitidamente, a sensação de expectativa ao entrar pela primeira vez no salão cheio de gente, adultos e crianças, todos sentados em duras cadeiras de madeira e voltados para uma cortina cerrada. Então, depois dos sacos de pipoca, dos vendedores ambulantes de drops e chicletes, a cortina se abriu, a iluminação do cinema se apagou e uma outra luz surgiu, criando imagens que se moviam e que eram como uma espécie de sonho. Aquele era um filme brasileiro, Uma pistola para D'jeca (Ary Fernandes,1969), estrelado por Amácio Mazzaropi. Meu pai adorava Mazzaropi e, assim, foi pela porta de um filme familiar brasileiro que ele me conduziu para dentro do mundo do cinema.

      São essas impressões que estão por trás da origem deste projeto. Buscar e compreender a criança que, naquele tempo, e nos dias atuais, entra no espaço mágico de uma sala de exibição foi a grande mola que conduziu as reflexões contidas em "Lanterna mágica". Tudo começou com a ideia de pesquisar sobre filmes infantis brasileiros feitos a partir de adaptações de textos literários. Não foram necessárias pesquisas exaustivas para constatar que, apesar da indústria editorial infanto-juvenil ser uma das mais fortes do país, há muito tempo os livros do gênero não servem de base para as produções cinematográficas nacionais destinadas às crianças. A partir dessa constatação, foi também fácil observar que, há tempos, os filmes brasileiros para crianças têm um pé fincado na televisão, principalmente com os trabalhos de Xuxa e dos Trapalhões.

     

"Gertie, o Dinossauro", primeiro personagem

do cinema de animação

 O autor traçou amplo painel, com informações esclarecedoras sobre o panorama internacional do gênero, e apresenta interessantes recortes da produção nacional. Cinéfilos, pais, educadores, interessados em arte e especialistas encontram dicas preciosas em Lanterna mágica, fruto de dissertação de mestrado para a Universidade de Campinas (Unicamp). 

 

Angela Faria, Estado de Minas/UAI

"Lanterna mágica - infância e cinema infantil" é uma obra que interessa a um grande número de leitores: historiadores, críticos e outros profissionais ligados ao cinema, assim como a pais, educadores, psicólogos e demais pessoas ligadas à formação infantil.

Alcino Leite Neto, na orelha da primeira edição

Primeira versão de "Alice no país das maravilhas", de 1903