Patagônia

Romance

Torres del Paine, Chile 

Foto: João Batista Melo

Calafate, Argentina 

Foto: João Batista Melo

 

No início do século XX, Otaviano Caldeira, filho de um rico fazendeiro no interior de Minas Gerais descobre que seu irmão foi assassinado numassalto a trem nos Estados Unidos. Ele decide seguir para a desconhecida e inóspita Patagônia Argentina, onde o criminoso teria se refugiado. Mas além de Otaviano, as grandes ferrovias, bancos e agências de detetives norte-americanos também estão no encalço dos bandidos mais procurados de sua época: Butch Cassidy e Sundance Kid. 

 

Criado como uma homenagem aos filmes clássicos de faroeste, Patagônia foi o vencedor do Prêmio Nacional Cruz e Sousa de Romance, promovido pela Fundação Catarinense de Cultura.


Para escrever o romance, além de uma extensa pesquisa bibliográfica, João Batista fez várias viagens à Patagônia argentina, onde conversou com descendentes dos vizinhos de Butch e Sundance e visitou a casa que eles construíram no belo vale de Cholila.

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Prêmio Nacional Cruz e Sousa de Romance

Patagônia é um romance superior, que concilia drama psicológico com os elementos fundamentais do western: cavalgadas, pistoleiros e acertos de contas, mas transpostos para o vaziio que se estende pelo Sul argentino até a Terra do Fogo. Ao lado e ao longe, a presença dos Andes 'cobertos de bosques ou, mais acima, revestidos pelas lâminas brancas de gelo'.(...) Demonstrando seguro poder narrativo e elegância de linguagem, João Batista Melo constrói o seu faroeste metafísico, em que cada fato aventuresco tem sua contraprtida de indagação existencial. (...) Quando a trama de Patagônia termina, estamos tocados pela aventura, no sentido épico do cinema de Wyler e, por instantes, pelo mais envolvente intimismo. Integrados na imponência de uma paisagem sul-americana e gratificados pela descoberta de um belo livro. 

Jefferson Del Rios, Bravo!

História

Rosa-Linda Obono Mukuy

Trecho

Butch Cassidy e Sundance Kid foram os líderes de um bando de assaltantes de bancos e ferrovias. Filhos de famílias pobres, eram cultos e elegantes. Foram imortalizados pela lenda como os últimos anti-heróis da conquista do oeste norte-americano, mas principalmente pelo filme de longa-metragem, estrelado por Paul Newman e Robert Redford, que fez grande sucesso na década de 1970.
O filme conta sobre a vida dos dois foras-da-lei, sempre acompanhados da bela Etta Place, nos Estados Unidos e a sua fuga para a Bolívia, onde teriam sido mortos num duelo com a polícia local. Não existe comprovação decisiva de que eles realmente morreram depois de roubarem uma mina boliviana, nem sobre qual outro destino tiveram a partir de então. Porém, é certo que o enredo do filme saltou cinco anos da vida dos três personagens, exatamente os que eles viveram no interior da Patagônia Argentina, antes de realmente fugirem para a Bolívia. A região de Cholila, uma pequena cidade junto aos Andes, ainda guarda recordações da passagem do famoso trio, inclusive a casa de madeira que eles construíram no meio de um vale.

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Os principais membros da Wild Bunch, incluindo Sundance Kid, sentado à esquerda, e Butch Cassidy, sentado à direita.

Patagônia é um romance de climas. O próprio tema exige alguma ação - que o autor, sutilmente, organiza praticamente toda apenas na memória do herói ou em situações que ele pode presenciar. Não é ela que importa, mas a representação que a personagem constrói. Otaviano Caldeira, o protagonista, reencena sua vida, a vida e a morte de seu irmão, a trajetória das pesoas que cruzam seu caminho na estranha jornada apresentada pelo livro. à medida em que conhece a Patagônia, Otaviano conhece realmente a si mesmo e a maneira como enxerga o mundo. A narrativa parece viajar pelo continente, mas na verdade apenas o recria no interior da mente do herói. Patagônia engana com sua variedade de paisagens, na verdade é um romance que caminha para dentro.

Marcelo Castilho Avellar, Estado de Minas

O silêncio se espalha ao infinito, quebrado somente pelo ritmo dos cascos. Somos três borrões na noite sem lua, quase invisíveis na imensidão do deserto. Abatidos pelo cansaço, seguimos o instinto dos animais, eles também enfraquecidos pela sede. Estamos perdidos há algumas horas, sem referências neste mundo de cânions e mesetas idênticas, reproduzidas interminavelmente, como a pintura de um artista louco. Somos um ponto na eternidade. Um ponto que desfalecerá sem água se tivermos de enfrentar o sol antes de chegarmos ao rio.
     Os dois homens que me acompanham revelam agora sua ignorância. Encontraram-se comigo numa taberna, um boliche, como o nomeiam os argentinos, e se apresentaram como guias experimentados nesta terra inóspita chamada Patagônia.
     Sinto saudades do Rio de Janeiro. O movimento nas ruas, bengalas e chapéus transitando entre os vendedores, o bourbon no Café Paris. Eu me vejo na redação do jornal, penas e papéis traçando críticas ao presidente Rodrigo Alves. E me vejo agora, tombado sobre os arreios, a winchester cruzada na sela, os lábios secos, a garganta fechada sem forças sequer para murmurar.
     O pistoleiro de cabelos grisalhos aponta para um desfiladeiro e diz que devemos avançar através daquela fenda. Conduzo o cavalo para a abertura entre as mesetas, não porque acredite estar na direção certa, mas porque não noto distinção entre qualquer dos espelhos que se disseminam à nossa volta.
     Os homens vão adiante, em fila, e eu os acompanho à distância. Sinto as paredes da garganta alongarem sombras sobre os nossos passos. São grandes muralhas que nos prendem e asfixiam. Elas se inclinam lentamente e repetimos assim o movimento de descida, dando-me a impressão de que refazemos sempre o mesmo trajeto. Movo-me já sem saliva ou lágrimas, sem suor que seque no vento frio. Sonho com fontes e cascatas, mares e chuvas, quero um beijo molhado em minha boca, um beijo molhado de encontro ao meu.
     Depois do cânion, o vento nos reencontra, oferece-nos um buquê de pó, um sopro áspero que é seco e queima como gelo. Deito a cabeça na crina do cavalo e espero que nada aconteça. Volto a sonhar e agora já não mais desperto quando desejo. Durmo ou desmaio e somente algum lugar longínquo dentro de mim consegue ouvir os gritos do pistoleiro grisalho, falando naquela língua que um dia já me foi estranha, e hoje é como se a tivesse conhecido no próprio berço.
      Ele fala algo mais, porém escuto apenas o início, que se repete em minha cabeça como o refrão de uma música antiga;
      "O rio, o rio, o rio".       

O texto de João Batista concilia rigor e poesia. 

Alécio Cunha, Hoje em Dia

É daqueles livros cujas imagens permanecem muito tempo depois de encerrada a leitura. 

Luis Giffoni, O Tempo