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Depois de dez anos sem publicar um novo livro, João Batista Melo retornou ao mercado editorial em 2008, com o lançamento de "O colecionador de sombras".

 

Retomando sua temática que inclui fortemente elementos do realismo mágico e da fantasia, alguns contos introduziram temas ligados à vida urbana brasileira, com seus componentes de tensão social, violência e individualismo.  

 

Uma garota procura fadas em meio às geleiras que se derretem nos Andes chilenos. Uma juíza tenta descobrir qual segredo de sua família foi registrado pelas câmeras dos satélites. Um menino nunca deixa que abram uma velha caixa de sapatos, temendo o que acontecerá assim que a destamparem. E um estranho ônibus percorre as ruas da metrópole na véspera de Natal. Doze contos sobre o encontro da violência e da tensão urbanas com o mistério e a fantasia.

Inserido na chamada Geração 90, a de escritores que despontaram na década passada, Melo prossegue bem seu exercício ficcional. O autor enfrenta o desafio da concisão e da expressividade do conto. 

Hélio Ponciano, Bravo!

Ele prova que qualquer tema, qualquer um, pode render uma grande história. (...) João Batista Melo, se pudesse, escreveria somente nas entrelinhas. Talentoso como poucos, ele sabe que existe o mundo para além delas.

André Di Bernardi Batista Mendes, Estado de Minas

João é herdeiro da boa companhia de contistas célebres, como Murilo Rubião, Sérgio Sant’anna e Jaime Prado Gouvea. Eu recomendo.

Afonso Borges, Mondo Livro

Trecho

Rosa-Linda Obono Mukuy

As sementes da neve

 

     Seu pai guardava o gelo nos olhos. Podia enxergá-lo quando as reuniões de trabalho o exauriam e faziam-no sonhar com eras glaciares, estalagmites se espalhando ao ar livre por toda a extensão do mundo. O frio de azul intenso o apaziguava e ele sorria nos momentos mais tensos do escritório. E, melhor que tudo, quando chegavam as noites e os esperados finais de semana,  retirava dos olhos aqueles cristais da pré-história e os desenhava no ar para que o filho também os visse.
     Muitas noites, Luís dormiu com o pai contando das trilhas que percorrera nas reentrâncias dos Andes, as geleiras se derramando nos vértices das montanhas, caudas  tingidas de branco ou de azul conforme a luz do sol escorria pelas infinitas agulhas. Mas a loja de materiais de construção conheceu maus momentos antes que o pai o retirasse das  ruas enfumaçadas de Belo Horizonte para conhecer de perto os sinuosos glacês, espremidos entre os picos nevados.
     Os planos de visitarem a Patagônia se estenderam pelos anos seguintes, sempre adiados, submissos ao humor dos balanços e dos voláteis clientes. E os glaciares se mantiveram restritos às histórias noturnas e às conversas em frente às tímidas ondas da lagoa da Pampulha. Ali, sentados nas pequenas encostas que se atiram no lago artificial, vislumbrando os carros e casas na margem oposta, falavam do gelo que brilhava nas memórias do pai ao mesmo tempo em que alimentava a fantasia do filho.
     Tão vívidas como as descrições que lhe fascinavam, eram os nomes enumerados pelo pai à medida que trazia a vastidão da cordilheira para o calor de um domingo em Belo Horizonte: Tronador, Perito Moreno, Los Cântaros, Ventisquero Colgante. Depois dos gelos, vinham os lagos, lâminas de cristal derretido, absolutamente anilados, acolhendo as águas que se desfaziam das geleiras, tremeluzindo seus nomes de magia: Huechulafquen, Puyehue, Panguipulli.
     O pai visitara a Argentina e o Chile antes de se casar, atravessando solitário as imensidões das montanhas e dos pampas, em meio às florestas de lengas e ñires, conhecendo vales perdidos, percorrendo rodovias nas quais não se encontrava um carro sequer, ou varando em pequenos barcos as ondas escuras e frias dos fiordes no Pacífico.
     Nas madrugadas, Luís sonhava, ansiando o nunca chegado dia de apalpar a frialdade daqueles blocos gigantes. Às vezes, ele abria o congelador e contemplava os minúsculos pingentes de gelo, projetando ali os mundos dos quais lhe falava o pai. Retirava os cubos gelados e os prendia na palma da mão. Pensava se seria a mesma sensação de tocar os quilômetros de água petrificada que, naquele mesmo instante, aprisionavam-se na cordilheira, longas safiras nas presilhas de uma imensa joia.  
(...)

O colecionador de sombras

Contos

Glaciar Leones, Chile  

Foto: João Batista Melo