Um pouco mais de swing

Contos

Foto: HMS Titanic - F.G.O. Stuart (1843-1923) [Domínio Público], via Wikimedia Commons

 
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Ao explorar com concisão a lendária mina das letras de Minas, João Batista Melo mostra que sua fantasia também tem, sempre, swing.

Jefferson Del Rios, Bravo!

Em seu último volume de contos, ‘Um pouco mais de swing’, de 1999, ele volta mais denso e sensível, com protagonistas maduros — e mesmo velhos — procurando se manter inteiros e salvar o que podem da corrosão da vida. A angustiante sensação de fracasso é equilibrada pela insistência dos sonhos, quando tudo pode adquirir novos contornos, ao menos por alguns instantes.

Regina Dalcastagnè, Professora de Literatura Brasileira / UnB, Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

Contos incluídos

Arquitetura dos sonhos

Um pouco mais de swing

A reprodução das abelhas

Noite

O viajante

A excursão

Carta para a senhora Ballard

Contos de "O inventor de estrelas":

Sedimentação

A mais longa viagem

A superfície

O som de água corrente

Com todo amor

Fale ao motorista somente o necessário

O inventor de estrelas

Casinha de bambu-ê

Prêmio Bolsa da Biblioteca Nacional para Obras de Autores Brasileiros em Fase de Conclusão

O conto que dá nome ao livro cria uma história alternativa para Louis Armstrong, homenageando ao mesmo tempo o jazz e o músico norte-americano. O livro inclui ainda mais seis contos, entre os quais "A reprodução das abelhas" (publicado originalmente numa edição especial do caderno Mais da Folha de São Paulo sobre a clonagem da ovelha Dolly, com o título de "O espírito da colmeia") e "Arquitetura dos sonhos" (publicado originalmente no jornal O Globo). 

"Um pouco mais de swing" reune contos premiados pela Biblioteca Nacional com a Bolsa para Autores com Obras em Fase de Conclusão. 

 

Também integra o livro uma reedição da coletânea "O inventor de estrelas", publicada originalmente em 1991.

Trecho

Rosa-Linda Obono Mukuy

Arquitetura dos sonhos
 
     
A cidade dava a impressão de que ia se desfazer a qualquer momento. Modeladas em adobe, as casas se levantavam do chão como plantas barrentas e subiam tortas e cheias de janelas. Poderia ser uma cidade de sonhos, se não fosse um velho presépio nos confins daquele vale sem futuro, apenas o caminho de um rio desatento que largava miséria em seu rastro de lixos e lamas.
      Diante do sobrado feito de barro, a velha modulava superfícies acariciando um monte de argila. Da ponta de seus dedos, percorrendo a matéria escura como se tocasse na pele de um homem, germinava uma cópia em tamanho menor da construção.
      Se alguém parasse na praça junto da velha, assentando-se ao seu lado para compartilhar uma tarde, veria um espelho invisível compor a reprodução perfeita do prédio decrépito. Tudo estaria lá nas mãos da velha, as paredes inseguras subindo por cinco andares, as craterinhas das janelas, as portas enfileiradas no primeiro pavimento, a curvatura dos marcos.
     O sol se ocultou detrás do sobrado, estendendo uma longa sombra através da praça. A velha continuou imprimindo dígitos na superfície do artesanato, arrematando as curvas delicadas que encimavam as ombreiras das janelas. Precisava terminar o sobrado naquela tarde, pois nos dias seguintes labutaria nas plantações raquíticas que teimavam em nascer no contorno da cidade. O filho demoraria a voltar das lavras onde garimpava parcos salários, trazendo nas mãos apenas o vazio das pedras que ficavam com os donos das minas. Era por isso que ela plantava e colhia, buscando nas entranhas da terra outras criações além de suas diletas miniaturas. O artesanato ficava para as horas de sobra, quando os bibelôs pousavam na praça à espera dos improváveis turistas.

É daqueles livros cujas imagens permanecem muito tempo depois de encerrada a leitura. 

Luis Giffoni, O Tempo

O texto de João Batista concilia rigor e poesia. 

Alécio Cunha, Hoje em Dia

Ao explorar com concisão a lendária mina das letras de Minas, João Batista Melo mostra que sua fantasia também tem, sempre, swing.

Jefferson Del Rios, Revista Bravo!